Logotipo da Laryssa Frezze e Silva



"A formalística/ A dureza/ Sob o jugo de Heathcliff/ Ninguém está vindo 

"o fumo está acabando. Também a paciência. Também o pão".



    Preciso acordar de manhã; buscar - os cantos dissimulados do meu quarto - qualquer coisa: um café, a escova de dentes. Toalha. Só depois vibro, sedenta. Palavras? Quem poderá me ouvir? 

    Aqui, em meio ao caos dos dias que passam, à deriva. (É preciso fazer da deriva, escolha. Assim: buscar mantimentos no fundo gélido do barco; tomar as pílulas de sono e não me preocupar com acordar a cada 45 minutos para checar a rota.

    Não há rota.

    Essa noite sonhei que era a protegida-moça da rainha da Inglaterra, soberana andando pelos corredores escuros do Colégio Anchieta, dando ordens. Mandou, inclusive, que ligassem aos meus pais, que absurdo! Eles não atendem. Era, pois, melhor garantir um quarto desertado, feito de madeira, e um vestido que me cobrisse os pálidos joelhos, que é um tipo de adjetivação apenas usada pela rainha da Inglaterra. Havia no cabide um chaveiro encrustado de brilhantes, esquecido em meio aos casacos, como algo sem valor). 

    Acordei e era já tarde, o céu cinzento. Todas as coisas do barco estavam onde eu as deixei por último; o fumo está acabando. Também a paciência. Também o pão.

    Mas tenho ainda torradas.

    Um amigo me escreveu; um amante sente falta do meu toque possível. Minha mãe ligou e disse ter comprado um frango para o almoço. Eu lhes digo assim: as cordas do meu banjo estão velhas; ele soa estranho no frio. Descobri muitas coisas que não sabia desde que saí da terra. Faz duas semanas que passei hora e meia construindo um belíssimo calendário, desenhado com giz de cera, para pregar na parede. Tenho sucedido excepcionalmente em ignorá-lo.

    Resolvi tomar como esposo o cachimbo que não uso, mas a ideia dele me atrai: uma velha sentada de cócoras, no meio fio de uma rua pós-quarentena, feita de paralelepípedos.

    Não a incomodem; a paz lhe é preciosa. Mas, se a quiserem mesmo e não trouxer repulsa essa lembrança constante de morte, os cabelos cor-de-cinza, as manchas de Sol em suas mãos, um suéter de lã, tecido pelas anciãs da família e com cheiro de cômoda, sente-se. Está buscando o quê? É inverno. Tudo ao redor está morto.

    É preciso esperar.

    (Minha mãe diz que sou boba quando lhe conto dessas coisas, mas o que eu digo é a verdade) Busquei no fundo da caixa o meu livro de orações; desde criança, tais obras simplesmente chegam-me às mãos. Fiz café, enrolei o que me resta. As palavras são um conforto, porque eu as repeti, certa vez, numa época feliz, primavera ainda. Sob ilusão de companhia alheia à minha. Repito agora os mesmos versos, com disciplina, ciente de que até hoje nunca pude partilhar com ninguém o meu Deus.

    Limpo o chão de madeira. Tenho medo, também; as noites tem estado tão frias para se dormir só. Só que, assim, à deriva, nesse continente gélido, em espera. Minha companhia é uma alegria da qual os outros não têm notícia.

    A bússola indica que na geladeira há batatas.

    Deus mora em uma caverna e está muito velho; quer que o deixem em paz. Já seu espírito habita cada criatura existente. Que mais querem que faça?

    A deriva é uma coisa que precisa ser constantemente evocada - é preciso ser deriva, completamente, porque mesmo o ar é feito de gelo. Não há rezadeiras as quais visitar entre a neve?

    (Falta apenas uma frase para o fim desse texto).

    Meu barco por ele passa e pode ferir-se.

    Não sei; não acho que dá para ser mais clara que isso.


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