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Transmutação ou Apontamentos de análise mágica sobre uma sexualidade Disney, suposta


Também a má-educação tem o seu lugar.

 

              Não senti nada, não sei por que menti. Talvez tenha querido tanto que fosse verdade, que resolvi fabricar coisas com palavras. Não me apetece, contudo, especular em cima disso; desejo um lastro, um dote, posse verdadeira do ouro. Por isso, conto uma estória:

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             Era uma vez a princesa de Reino Algum, onde nada existia que não fosse por ela criado. Certo dia, tirou de si uma feiticeira, que lhe jogou uma maldição. Assim:

 

“No silêncio de um quarto na metrópole

Vozes vêm através de um quadrado

Quando soam, um conforto momentâneo

Não há toque e o sono está quebrado.

 

As estradas e as trilhas são fechadas.

Tudo bem; ainda assim há teto:

Uma torre de cimento, com janelas

E um peso de tijolo que é concreto.

 

Nessa torre achará da roca, agulha

Sapo, beijo, maçã dura e sapato

E nas pétalas da rosa em que mergulha

Um vazio, outro nome do Abstrato.

 

Bem aí estará o seu problema

No silêncio, como agora proceder?

A visão pousa os olhos, tão amena,

Mas borbulha o que a vista faz doer.

 

O que existe é verdade ou é mentira?

Quantos buscam pela torre, afinal,

Tendo ouvido sobre a Princesa Perdida

No contexto de uma vida tão normal?

 

Colchas tece, de enxoval, que lhe ensinaram.

Os cabelos penteados e sedosos

À espera de um príncipe instantâneo

Sabedor de engenhos habilidosos.

 

E agora?

 

Não há torre, não á príncipe ou princesa;

Não há colcha ou agulha ou papelão

Nunca houve; de onde veio essa estória?

Baseada parcamente em qual versão?

 

É preciso construir toda a distância,

Como a irmã dos cisnes brancos, sem dizer

Quanto doem os seus dedos, que assim fiam

Os espinhos da urtiga. Por lazer?

 

Onde está o prazer da empreitada?

Onde está a segurança do chão?

Sem coroas, sem vestidos e sem nada

Eu não quero, renuncio a sua mão.

 

E descalça, nua, firme e desperta

Só o tempo acabará com a maldição.

É mesmo assim que a encontrarão, Princesa.

É mesmo assim que os encontrará, então”.

 

            A tal princesa, tendo ouvido essas palavras, tomou para si um sapo e subiu voluntariamente até o alto da torre. Feriu o próprio dedo na roca, comeu a maçã cheia de veneno, tirou os sapatos e os jogou da janela. Por fim, estando já tonta pelo efeito da substância, beijou o sapo com o amor que tinha às sagradas criaturas, deitou-se e pôs por cima do peito a rosa. Daí bendisse, a voz já fraca, tudo aquilo: sua morte e a terrível ausência causadora. Suas últimas palavras foram:

- Sinto frio, muito frio, e meu coração está estranho. Bate rápido, ansioso. Talvez não entenda a benção que são os olhos úmidos. Vejo agora, com clareza: o que eu pensei ter existido está muito longe desse arrepio de pele. É verdade! Olha bem como meus pelos se esticam, atentos! Morrer assim é uma delícia. Diga às outras moças esperançosas o seguinte: essa coisa da distância é falsa, se não vier também com a brincadeira da dúvida. A única distância que me interessa é aquela do pique-esconde. Às outras, respondo agora com o sumiço que me pedem.

-

             Morreu, então. Tinha cumprido seu maravilhoso propósito. E o seu corpo virou o maior valor que tenho, de modo que conto essa estória sempre que me dão a chance. Do alto dessa minha torre chã, seguindo seu exemplo de princesa, fio distâncias com cuidado, maiores ainda, até; mais complexas em entrâncias e reentrâncias.

       Trabalho em paz. Teço fios delicados e firmes para os que repousam no silêncio do esconderijo, só para depois reaparecem, de propósito, querendo ser vistos. Chamam-me para dançar, inclusive. Acho-lhes graça, porque gosto de rir das coisas e costumo aceitar esses convites. Afinal, não sabe o meu corpo o gosto do veneno, da dor, do beijo? Demais, não permito que esse corpo se aliene, pois não foi isso o que lhe ensinei. E o que eu desejo é simplesmente o desejo: sujeito e objeto, o outro e a identidade. Aquilo que não é cópula, qualquer que seja a espécie, também não é nada.

            Escrevi no túmulo da princesa-amada o seguinte:

 

                “A primeira resposta está no silêncio. A segunda, em mim mesma. A terceira, no espaço que abro para você. A quarta, em sua atitude. A quinta, em como caminhamos juntos. A sexta, nos termos da separação. A sétima, no reencontro. A primeira, no silêncio”.

 

         E essas palavras se tornaram um monumento de tempo, de modo que acabou; não existe mais maldição alguma.


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NOTA: A imagem que ilustra essa publicação é referente ao maravilhoso  e tradicional conto russo "Vasalisa", que conta a estória de uma menina cuja boneca tinha poderes mágicos. Contudo, proponho outro conto russo para a intertextualidade com o presente texto, isto é "a princesa morta e os sete cavalheiros". Trata-se de uma estória com vários paralelos narrativos com àquela compilada pelos irmãos Grimm, isto é, "Branca de neve e os sete anões". A versão russa, contudo, tem diferenças interessantes: mais mulheres participam da estória e a relação de proteção que a princesa estabelece com seus anfitriões não se dá através da figura de anões-crianças, mas de homens que escolheram vê-la como irmã. Deixo as referências abaixo, se você ficou interessado nesse tema. Topava várias conversas, aliás. Deixa um comentário, vai ^^
 
 
 
REFERÊNCIA DA IMAGEM UTILIZADA: 
http://fairytalelandstories.com/2013/07/19/baba-yaga-e-vasilisa-a-bela-de-alexander-afanasyev/, último acesso em 02 de julho de 2020. 
REFERÊNCIA DO TEXTO “A PRINCESA MORTA E OS SETE CAVALEIROS”, em inglês:
https://www.wikiwand.com/en/The_Tale_of_the_Dead_Princess_and_the_Seven_Knights, último acesso em 28 de junho de 2020. 

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