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Retalhos sonoros 


"foi pisar no velho Teatro da Luz, e sentir – como nunca antes – estar em casa, em meio a sanfonas, gaitas-de-foles, guitarras acústicas. Como eu não conhecia isso antes?".


“Nem todos os que vagueiam estão perdidos”. ¹


             Posso começar essa estória de muitas formas: com minhas danças de camisola na sala, os estudos autônomos de cultura celta, o vaticínio da rezadeira, que recomendou à minha mãe o estudo da música, ou o exemplo de autodidatismo de um dos homens que amei.

            Posso falar do dia em que comprei meu primeiro ukulele, um Kala soprano, com cordas feitas de tripa, o que me deixou meio desconfortável, embora eu só tenha descoberto esse detalhe depois. Joguei no google “aulas de ukulele em São Paulo” e achei o anúncio de um cara, professor de música, que viria a se tornar não só mestre, como amigo de vida²! Dali a duas semanas, chegava (atrasada, aliás, por ter tomado o ônibus errado) em seu estúdio de madeira, como a cabana do Daniel Boone. Nunca mais parei de frequentar a sua casa.

            Também tem aquela vez, em que morei em Lisboa e os recentes amigos italianos me chamaram para um baile de dança tradicional. Por que não? Gente, foi pisar no velho Teatro da Luz, e sentir – como nunca antes – estar em casa, em meio a sanfonas, gaitas-de-foles, guitarras acústicas. Como eu não conhecia isso antes?

            Mas acho que tudo começa com uma escolha e eu, que não sou exatamente letrada em música, tenho aprendido. Ainda assim. Não trago do berço esse amor familiar aos ouvidos, talvez ele venha desde antes disso. Sinto ser preciso ultrapassar muitas barreiras, tudo aquilo que ainda não entendo bem: sétimas, nonas e uma linguagem que sei reproduzir no corpo, mas cuja fluência me escapa ainda, tendo um instrumento em mãos. Estou decifrando o código e a estrada que escolho é aquela que melhor me soa, sabe? A da música tradicional, sem dúvida. Acerca disso, diz o seguinte Tom Hanway, um escritor massa:

 

“Em tradições orais – seja a música blues, old-time, bluegrass ou Celta – fluência, intuição e licença poética têm precedência à página escrita. Tudo precisa ser internalizado de antemão e a performance é superior a qualquer música escrita. A tablatura é realmente apenas um mapa – e não deve ser confundido com o território em si. A música verdadeira está em você. Você precisa aprender a senti-la. Para esse propósito, sugiro que busque músicos que soem bem aos seus ouvidos, em eventos musicais ao-vivo, especialmente em sessions³ e tente aprender diretamente deles, internalizando o que tocam, até que se torne seu”. (HANWAY, 1998 - tradução nossa).

 

            Tomei nota, assim tenho feito. É esse o tipo de coisas que vocês podem esperar ver por aqui. =D

 


 

¹) No original “Not all those who wander are lost”, primeiro verso do poema "All that is gold does not glitter", de J.R.R. Tolkien, autor da trilogia “O Senhor dos Anéis” e de muitos outros livros que desenvolvem a mitologia da Terra Média, a qual ele também criou. Nesse poema, fala-se da profecia de Aragorn, que esteve afastado do trono de Gondor, mas que voltaria a ser soberano. Aliás, uma curiosidade interessante é que o Tolkien era um linguista de cair o queixo. Você sabia?

 

²) Cara, você já ouviu falar do “Projeto Country Roads”? É um trabalho de estudo profundo de instrumentos exóticos e gêneros tais como a música étnica, a Old-time mountain music, o Western, o Folk, o Bluegrass e releituras. Encabeçado pelo Maestro JP e pela multi-instrumentista Soninha Koi, tem várias formações, ocasionalmente contando com a presença de outros músicos. Vale à pena conferir e seguir esse trabalho, gente! ^^ (@countryroadasbanjo)

 

³) Sessions são reuniões de músicos amadores e profissionais, dedicadas a tocar de maneira espontânea a música tradicional Celta. Normalmente acontecem em bares, mas não é regra.

 

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA, PARA QUEM FICOU INTERESSAD@:

·         HANWAY, Tom. Complete book of irish e celtic 5-string Banjo. Editora Melbay, 1998.



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