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A importância de se manter a
atitude Santosha


Laryssa Frezze e Silva
Professora de Yóga, formada pelo
Instituto Yóga Clássico de São Paulo
E Delegada da PACY (Comissão Panamericana de Yóga).

O Yóga nos ensina que Santosha é a atitude do contentamento. Já nos Yóga Sutras de Patãnjali vemos que tal estado de consciência aparece como benefício direto de certas práticas, demonstrando que a experiência de Santosha é algo que vale à pena e que a dedicação necessária para sua

obtenção não é vã. Frequentemente a mensagem dos Yóga Sutras é a persistência.

E é necessário persistência para que se alcance Santosha.

Há, contudo, toda sorte de impedimentos na vida cotidiana que nos afastam desse estado psíquico, o que nos prejudica sobremaneira, porque permite o engajamento na dimensão ilusória, Maya. Ocorre, porém, que a manutenção de Maya é mais fácil do que o escape dela. E isso se dá porque o sistema, a Roda de Samsara, a qual sustenta os ciclos de nascimentos e mortes, é solidário para consigo mesmo. Certamente há uma razão para que isso ocorra e para que seja necessário nascer e morrer muitas vezes antes de se alcançar qualquer vislumbre sobre a natureza do que é a Libertação, a ponto de desejá-la para si e colocar-se em caminho para sua obtenção.

Nesse meio tempo, porém, enquanto se caminha e se é estimulado pelos estímulos do mundo, pelos desejos e necessidades dos corpos, por suas manifestações (emocionais, psíquicas, elétricas etc.), é fácil ao caminhante perder-se. Não há mapa manifesto rumo à libertação, que não aquele que nos dói encarar, porque é preciso passar através dos medos e da dor. Não há atalho, na perspectiva Yóguica. É possível, sim, pedir auxílio à divindade, é possível preparar os corpos com práticas e jejuns e abstenções de toda a espécie. É possível também meditar e limpar a consciência daquilo que impede o discernimento. Todas essas coisas são ferramentas legítimas e verdadeiramente auxiliam na caminhada. Mas nenhuma delas servirá a qualquer propósito se não for acompanhada da prática séria e diária do discernimento (Viveka), o que pode ser duro e muito difícil.

E, veja: o discernimento é uma condição para a manutenção de Santosha.

Não nos é permitido, no caminho do Yóga, a auto-indulgência. Devemos amar-nos, muito. Mas não devemos olhar de maneira irresponsável para nossas próprias sombras. E elas nos rodeiam a todo o tempo, como bem se sabe. Conviver de maneira tão próxima com elas pode ser assustador. E é. Devemos conviver, mesmo assim. Devemos livrar-nos dos automatismos mentais que não nos permitem ver com cuidado nossas próprias condutas. São eles que continuam a regar e a fazer crescer as atitudes perversas, quando, em realidade, seria preciso cortá-las pela raiz. Mas veja, mesmo a perversidade não é algo fácil de conhecer. E, às vezes, é mais fácil vê-la nos outros do que em si mesmo/a, de modo que não é possível que haja Santosha sem também a existência do autoconhecimento.

É-nos tão difícil cortar hábitos e formas-pensamento que aprendemos a amar em nós, porque nos tornam conhecidos e permitem que reconheçamos um padrão, ao qual chamamos de “identidade”. É-nos tão difícil assumir a responsabilidade acerca daquilo que deve viver em nós e aquilo que não devemos deixar que se desenvolva, porque, afinal, quem somos nós para fazer tal tipo de decisão? Como a nós, que sabemos tão pouco, cabe tal responsabilidade de escolha? De modo que, frequentemente, nos abstemos.

Porém, não devemos fazer isso; essa conduta é similar a uma armadilha. Ser co-responsável pela criação de si mesmo é algo que nos dá medo, mas não estamos isentos disso, por mais terror que nos provoque exercer essa responsabilidade. A única saída possível é assumi-la para si. Na vida cotidiana, isso pode ser feito através de perguntas, como: o que não está funcionando? Por quê? Qual é o meu papel nesse cenário e qual ação/movimento (karma) posso tomar para agir sobre ele de maneira responsável? Não se deve agir sem consciência, de modo que Santosha pode ser também o benefício de uma ação. Às vezes, no entanto, pode ser o benefício da não-ação. E, veja, tudo é sempre tão dúbio? Sim, é. Daí a necessidade do discernimento, que apenas vem de uma psiquê equilibrada, sem estímulos mentais em descontrole e caos.

E quais são esses automatismos mentais que impedem o alcance de Santosha? Como fazer para concentrar-se em um único ponto, acalmar as ondas psíquicas que nos acometem e ver as coisas com clareza? Como é possível que pensamentos tão imateriais, apenas ideias difusas, possam dominar a psiquê e subjugá-la a tanto sofrimento e dor?

A conduta necessária é a seguinte: não dispersar-se, não violentar-se, não trair a si mesmo/a e não projetar a consciência para fora, porque ela existe em si mesma – e não como algo que precisa da materialização do concreto como condição de manifestação.

Os automatismos mentais que impedem o Santosha são justamente aqueles que dispersam o pensamento, através de associações que não têm sentido em si mesmas e ocorrem apenas para o gozo da mente em sua própria estrutura. São também os que violentam a mente, viciada na manutenção apegada das emoções e que propõe o pensamento circular como tentativa de solucionar problemas. Muitas questões (e talvez as mais complexas da experiência humana) não se resolvem apenas através do raciocínio, mas necessitam também da elaboração por outros meios. E a mente precisa aprender isso.

No que tange a deixar de trair a si mesmo/a, há de se ver que é algo apenas possível de ser alcançado caso se saiba quem de fato se é. Qual a natureza desse indivíduo complexo? Quais suas limitações, potencialidades, medos, inseguranças, razões verdadeiras de alegria e prazer? O que permite a esse ser a sua própria e única plenitude? – são perguntas que às vezes nos esquecemos de fazer, tendo como desculpa as tarefas diárias, o passar dos ponteiros nesse objeto limitado que é o relógio, a falta de conhecimento. Dessa maneira, quem de nós sabe respondê-las de forma pacífica e consciente?

Quando nos abstemos de respondê-las, caímos muitas vezes numa espiral de insatisfação, que a mente procura justificar pelas mais diversas formas – todas elas, contudo, relacionadas a demandas externas. É curioso reconhecer que a mente muitas vezes quer modificar realidades às quais não tem acesso ou qualquer poder de ação. Por que ela faz isso? Como resultado, ao falhar em sua empreitada, ela sofre e depois apega-se ao sofrimento.

Por que vivemos assim, meu Deus?

A insatisfação é oposto de Santosha: um indivíduo que tem o discernimento de si mesmo, de seus processos e realidade empírica não precisa e nem quer engajar seu aparelho psíquico naquilo que apenas agirá para a manutenção da dor. Um praticante que trabalha para manter Santosha em sua vida reconhece a realidade assim como ela se apresenta, não como poderia ser, e age sobre ela sem medo, porque exercita-se para não se apegar a nada que seja externo à própria consciência.

Agir assim, de maneira talmente desperta e isenta é difícil, mas também não é fácil sofrer pelo que nos foge ao controle. Há de se ver, portanto, que Santosha é uma questão de escolha, também – consciente ou inconscientemente.

Não se trata, veja bem, de uma atitude conformista, porque Santosha é um estado de espírito ativo e responsavelmente co-criador. Trata-se da consciência dos mecanismos através dos quais as sutilezas do ser agem e da aceitação desses mecanismos como primeiro passo para modificá-los, caso seja necessário e o quanto seja possível.

Santosha, portanto, é uma disciplina, chamada também de nyama. É um estágio necessário, em que a existência é encarada e aceita exatamente como é. Para que é necessário ampliá-la? E, se faz-se mesmo necessária essa ampliação, como fazê-la de forma justa, benéfica e responsável? Essas são perguntas de ouro. Não nos abstenhamos delas. Santosha é também auto-responsabilidade, como vimos; uma dedicação à verdade.


Bibliografia:
ELIADE, Mirecea. “Técnicas de autonomia. a concentração em ‘um único ponto’ “, in
Yoga: imortalidade e liberdade, Editora Palas Athena, 6ª edição, 2015. Pp. 53 – 57.
PATÃNJALI. Os Yoga Sutras - Texto clássico fundamental do sistema Filosófico do Yoga. Tradução do sânscrito por Carlos Eduardo G. Barbosa. Editora Mantra, São Paulo, 2014.


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